
A pressão para conciliar produtividade e vida pessoal tem levado cada vez mais pessoas à automedicação. Para dar conta da rotina acelerada, muitos passaram a enxergar nos medicamentos uma solução rápida para manter o ritmo e silenciar sintomas provocados pelo próprio estilo de vida. No entanto, o uso inadequado dessas substâncias, além de não tratar a origem do problema, pode desencadear novas complicações.
Segundo a Associação Brasileira das Indústrias Farmacêuticas (Abifarma), a automedicação causa cerca de 20 mil mortes por ano no Brasil. Com o tempo, esse comportamento pode se incorporar à rotina de forma quase automática. Sem perceber, muitas pessoas passam a utilizar medicamentos para regular o dia a dia.
Mas o que o uso dessas substâncias, muitas vezes desnecessário, pode revelar sobre a saúde? Lapsos de memória, irritabilidade, cansaço extremo, tensões musculares e problemas digestivos podem ser sinais de alerta do organismo. Mais do que serem apenas silenciados, esses indícios deveriam levar o paciente a refletir sobre qual problema de saúde está sendo encoberto pelo uso do medicamento.
Entre os sinais mais frequentemente ignorados está a privação de sono, um dos reflexos mais comuns da busca incessante por alta performance. Segundo a médica otorrinolaringologista cooperada da Unimed Porto Alegre Luísi Rabaioli, além do uso de medicamentos, é cada vez mais comum combater a sonolência diurna com o consumo excessivo de cafeína e energéticos, em vez de investigar a causa da fadiga.
Luísi explica que, por trás desse quadro, pode estar a apneia obstrutiva do sono, condição que atinge cerca de 30% da população, embora aproximadamente 80% dos casos permaneçam sem diagnóstico. De acordo com a especialista, isso ocorre porque muitas pessoas consideram o ronco algo normal e não associam o sintoma aos prejuízos percebidos durante o dia.
— Além da investigação, é preciso adotar cuidados diários, o que chamamos de higiene do sono: manter horários regulares para dormir e acordar, inclusive nos dias de folga; evitar o excesso de telas duas horas antes de deitar; e reduzir o consumo de cafeína após as 14h. Nenhum medicamento para dormir ou estimulante substitui esses cuidados e alguns podem, inclusive, piorar a apneia. — alerta a médica.
O medicamento não deve ser usado como atalho para silenciar sintomas
MÉDICA OTORRINOLARINGOLOGISTA COOPERADA DA UNIMED PORTO ALEGRE LUÍSI RABAIOLI
Uso indevido
As consequências da automedicação preocupam médicos e a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que já considera a prática um problema de saúde pública. Para o médico psiquiatra cooperado da Unimed Porto Alegre Paulo Rogério Aguiar, o uso indiscriminado de medicamentos representa uma tentativa de pular etapas naturais da vida, impulsionada pelo imediatismo dos tempos atuais. Segundo ele, a tecnologia reforça a ideia de que sempre existe uma pílula capaz de oferecer uma solução rápida para qualquer dificuldade.
— Vemos isso na ansiedade relacionada a situações pontuais, como desavenças familiares ou problemas no trabalho. Às vezes, pessoas tomam antidepressivos por causa do luto, o que não é uma indicação adequada. O remédio jamais substituirá esse processo — pontua Aguiar.
A busca por produtividade também tem levado estudantes e concurseiros ao uso de psicoestimulantes para melhorar a memória e afastar o sono. Embora essas medicações sejam seguras no tratamento do TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), por atuarem no sistema dopaminérgico — que desempenha um papel crucial no controle da motivação, prazer e recompensa —, tornam-se um problema quando consumidas sem necessidade clínica.
— Além do risco de dependência, o uso indevido pode provocar desregulação do sono e irritabilidade. Nos casos de insônia, existe ainda o risco de perder a naturalidade do sono fisiológico e desenvolver a crença de que só é possível dormir com medicação. Isso cria pessoas que usam remédios por décadas sem necessidade real. Algumas medicações podem causar dependência química e clínica — explica.
Esse processo pode ir além dos efeitos físicos e alterar também a forma como cada pessoa lida com as próprias dificuldades. Aos poucos, muitos deixam de confiar nos próprios mecanismos de enfrentamento e superação, depositando toda a expectativa de bem-estar na capacidade de cura dos medicamentos.
Afetando o corpo
A busca por soluções imediatas já não se limita à saúde mental e também passou a alcançar a relação com o próprio corpo. Em meio à pressão por resultados rápidos, cresce a procura por medicamentos usados para emagrecimento. Mesmo com venda condicionada à prescrição médica, as chamadas “canetas emagrecedoras” vêm registrando alta demanda no país.
Segundo pesquisa do Instituto Locomotiva, 33% dos entrevistados afirmaram já ter usado alguma versão do medicamento e, entre esses usuários, 40% disseram ter adquirido o produto sem receita médica. Nos últimos anos, a médica endocrinologista cooperada da Unimed Porto Alegre Maria Cristina Matos observa um aumento na procura por medicamentos para emagrecimento em situações nas quais não haveria indicação clínica. Segundo ela, é cada vez mais comum atender pacientes que buscam remédios para perder dois ou três quilos antes de um evento, sem disposição para adotar mudanças mais duradouras no estilo de vida.
— Existem indicações precisas. Nos casos de obesidade, o uso da medicação pode ser contínuo, porque estamos falando de uma doença crônica. O problema está quando pessoas sem obesidade, com apenas um leve sobrepeso, querem emagrecer além do que seria saudável.
Na tentativa de emagrecer, alguns pacientes também recorrem a medicamentos desenvolvidos para outras finalidades, como os para o tratamento do diabetes tipo 2. A endocrinologista explica que esses remédios não foram criados para perda de peso, embora possam apresentar esse efeito em alguns casos.
— Algumas pessoas usam acreditando que vão emagrecer e isso não acontece. Outro exemplo é o hormônio da tireoide. Como um dos sintomas do hipertireoidismo é a perda de peso, há quem imagine que o uso do hormônio provocaria o mesmo efeito, o que não é verdade. Essas práticas vêm sendo substituídas pelas “canetinhas”, embora tenham um custo mais elevado — finaliza.
Quando vida hábito
Em muitos casos, o uso de medicamentos sem orientação médica se transforma em um comportamento quase automático. Para refletir sobre a sua relação com esse consumo, observe se alguma das situações abaixo faz parte do seu dia a dia:
- Você toma medicamentos sem consultar um médico?
- Usa “só para garantir”?
- Não lembra quando começou a tomar?
- Leva o produto na bolsa ou na mochila diariamente?
- Usa para conseguir trabalhar ou manter a rotina?
- Aumenta a dose quando acha que “não fez efeito”?
- Fica ansioso (a) quando percebe que esqueceu de levar?
- Usa mesmo quando os sintomas são leves?
- Já indicou para outra pessoa?
- Sente que se tornou indispensável?
- Já tentou ficar sem e se sentiu inseguro (a)?
- Usa como prevenção, e não como tratamento?
- Toma por medo de sentir dor ou mal-estar, mesmo sem sinais claros?
Se respondeu “sim” a duas ou mais perguntas, pode ser um sinal de que vale a pena repensar essa relação e buscar orientação de um profissional da saúde.
Menos remédio, mais prevenção
Adotar hábitos saudáveis pode ser um caminho importante para reduzir a automedicação e promover mais qualidade de vida. O médico psiquiatra cooperado da Unimed Porto Alegre, Paulo Aguiar, destaca três cuidados naturais que considera fundamentais para preservar a saúde física e mental no dia a dia:
Sono de qualidade
Dormir bem é indispensável para a recuperação do sistema nervoso e para a regulação das funções do organismo. Um descanso adequado contribui para mais energia, equilíbrio emocional e disposição para lidar com os desafios cotidianos.
Atividade física
Os melhores resultados surgem da combinação entre exercícios cardiorrespiratórios, como caminhada ou corrida, e atividades de resistência, como a musculação.
Gerenciamento do estresse
Reservar alguns minutos para meditação, respiração consciente e momentos de autocuidado ajuda a reduzir a sobrecarga mental e a interromper o funcionamento no “piloto automático”.



